Nelson Gonçalves: O MITO - PARTE "I"

Onélia Queiroga
crônica da professora onélia queiroga*

O estudo dos mitos faz-se através da ciência que lhes é propícia: a mitologia. O vocábulo nos arrasta à mitologia grega que nos narra as histórias fantásticas dos seus deuses, semideuses, heróis e mitos. Homens, deuses, semideuses e mitos são palavras que se entrecruzam para explicar e ressaltar o significado e a história de uma pessoa muito especial, diferente das demais.

Os homens quanto mais buscam a perfeição e a semelhança com os deuses, com os seus feitos, mais chance têm de se tornar um mito. O mito, para muitos, é um verdadeiro símbolo, algo irreal, ilusório, fantasioso, por isso grandioso. Uma de suas acepções revela esta captação do espírito, se há transmudação dos deuses “nas forças da natureza e/ou em aspectos da condição humana”. O mito pode ser, também, algo palpável, real, quando representa fatos ou pessoas que exerceram significativa influência na vida de um povo. Costuma-se dizer, entre nós, que Rui Barbosa, Duque de Caxias, Santos Dumont, Tiradentes, Machado de Assis são mitos, cada um dentro de sua atuação específica.

Os mitos dominam o inconsciente popular e disto conscientes estamos em relação a Nelson Gonçalves. O Brasil reconheceu-lhe a condição de mito, ao cravar no frontispício do estojo de três Cds, que reeditou canções suas antigas e lançou outras recentes, o epíteto: “Nelson Gonçalves: O Mito”. Stella Miranda, ao traçar-lhe o “Perfil Biográfico” que acompanha o estojo, com sabedoria pontifica: “Os mitos habitam o inconsciente folhetinesco como herança cultural, fortalecendo nossas referências e tramando nossa memória coletiva. Ora, a narrativa dos tempos fabulosos de um herói da mitologia brasileira como Metralha, serve como farol para nos alumiar, como dizia Mário de Andrade: se genial, indicando o caminho a seguir; bestial, naufrágios por evitar. O Brasil vive procurando a si mesmo. Achou. Carmem Miranda, Orlando Silva e agora Nelson Gonçalves. A recuperação do mito Nelson Gonçalves começa hoje, aqui”.
Nelson Gonçalves é mito por tudo o que fez pela música popular brasileira. A herança cultural que nos deixou é marco de nossa brasilidade, de nossa identidade nacional. A sua produção é astronômica se compararmos com a de muitos cantores. As cifras estão aí para comprovar. Ao morrer, ao quase 79 anos de idade, deixou o incrível índice de 78 milhões de discos vendidos, entre Cds, Lps, cassetes, discos de 78 rotações e compactos duplos e simples, e discos de 45 RPM.

Nelson Gonçalves manteve forte e longo liame com a RCA - Victor. Esta, no início do contrato, cuidadosa em divulgar o novel cantor a integrar com extraordinário brilhantismo o seu elenco artístico, em reportagem publicada nos jornais, chama-o de “integrante máximo da canção popular brasileira”, e de “cantor de voz expressiva”, além de afixar, no local da apresentação, um cartaz com os seguintes dizeres: “Nelson Gonçalves, sensacional descoberta apresentada em discos Victor”. O que Victor Lattari não imaginara, nem previra, é que o contrato com a Victor seria, de todos, o mais longo assinado por um cantor: o tempo de 57 anos de carreira artística. Tal referencial valeu-lhe, quando completara 33 anos de permanência recorde na mesma gravadora, um prêmio, antes só concedido a Elvis Presley: O Prêmio Nipper, e este nada mais é senão aquele cãozinho famoso, que fica ao lado do gramofone no selo da gravadora.

Nelson, nas cinco décadas de carreira, bateu todos os recordes. Gravou mais de 2.000 canções, sendo 370 de Adelino Moreira, espalhadas em 183 discos 78 rpm, em 100 compactos, 200 fitas, 128 Lps, mais de 20 Cds, sem contar mais vinte que serão lançados em homenagem póstuma ao cantor, conforme nos comunica Pedro Alexandre Sanches, na Semana Ilustrada, de 29 de junho deste ano. Não se trata de caso de necrofilia oportunista, como esclarece o subscritor da reportagem, porque a gravadora já vinha implementando o projeto de restauração da obra de Nelson Gonçalves. Ninguém iguala-se a Nelson em cópias de discos vendidas; a sua cifra alcança as 78 milhões de cópias, recebendo, com muita honra e justiça, por todo este sucesso, 15 discos de platina e 41 de ouro, deixando de receber, pessoalmente, este último prêmio, pela vendagem de 100 mil cópias do CD “Nelson Gonçalves - Ainda é Cedo” por ter falecido, inesperadamente, poucos dias antes da entrega.

*Escritora e Professora de Ciências Jurídicas
da Faculdade de Direito da UFPB.
Colunista do Caderno 2, página Cultura,
do jornal “ Correio da Paraíba”.

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